Queda de até 70% no preço do barril do petróleo influenciou cortes na estatal
Duas gigantes da economia brasileira – a Petrobras e a Vale – enfrentam um momento difícil no mercado internacional com os preços das commodities – o barril do petróleo e o minério de ferro -, despencando. A desvalorização brusca das matérias-primas somada a outros fatores, como os escândalos de corrupção, no caso da estatal petrolífera, colocam as multinacionais em meio a uma grave crise.
A conjuntura que atravessam já traz preocupação para o Estado, que tem uma forte dependência dos projetos dessas companhias. Com cortes em seus investimentos, empregos ficam ameaçados, a cadeia de fornecedores perde mercado e se desmobiliza e a arrecadação de receitas tende a ser reduzida.
Nesta terça-feira (12), a Petrobras anunciou um novo corte após aprovação do Conselho de Administração. Os investimentos totais da companhia vão cair US$ 32 bilhões até 2019, o equivalente a 24,5%, uma vez que eles saíram de US$ 130,3 bilhões, previstos anteriormente, para US$ 98,4 bilhões.
O quanto que isso vai representar para o Espírito Santo não foi detalhado pela empresa, mas as quedas colocam ainda mais dúvidas sobre o que de fato será feito no Estado. No último ano, especialmente, a Petrobras anunciou o cancelamento de projetos que estavam previstos e a postergação de outros.
Plataformas, Polo Gás-Químico, base de apoio a embarcações e terminal de GNL foram algumas das promessas não cumpridas em território capixaba. Para se ter uma ideia, esses projetos eram esperança de criação de mais de 12 mil empregos e investimentos superiores a US$ 7 bilhões.
No caso das reduções anunciadas ontem, a petroleira justificou que os ajustes são necessários para “preservar os objetivos fundamentais de desalavancagem e geração de valor para os acionistas, estabelecidos no Plano de Negócios (PNG) 2015-2019, à luz dos novos patamares de preço do petróleo e taxa de câmbio”.
Os cortes vão atingir em cheio a produção de petróleo nacional para este e os próximos anos. Segundo a estatal, a produção prevista de 2,8 milhões de barris diários em 2020 cairá para 2,7 milhões. Já a produção para este ano ficará em 2,145 milhões de barris diários contra 2,185 milhões previstos anteriormente. A produção média no ano passado foi de 2,128 milhões de barris por dia, 0,1% superior à meta, que era de 2,125 milhões.
Evolução do preço do barril de Petróleo (clique na imagem para ampliá-la)
A revisão no Plano de Negócios também projetou novas cotações do petróleo tipo Brent – referência para o mercado global. A previsão passou de US$ 55 para US$ 45 o barril. No ano passado, o preço médio do Brent ficou em US$ 52 o barril. Ontem, ele fechou na casa dos 30 dólares.
O ex-diretor da ANP e professor do Grupo de Economia da Energia (GEE) da UFRJ, Helder Queiroz, vê com ceticismo a premissa de que o barril do petróleo fechará o ano com uma média de US$ 45. “Considerando que há um excedente de petróleo no mercado e que a cotação está abaixo de US$ 40 há várias semanas, a conclusão é que a Petrobras trabalha com uma estimativa irreal, que não está aderente à conjuntura atual”.
Petróleo fica abaixo de US$ 30
O preço do barril de petróleo caiu e chegou a ser cotado a menos de US$ 30 pela primeira vez desde 2003, ontem. A queda no valor da commodity se intensifica visto que a Organização de Países Exportadores de Petróelo (Opep) não tem planos para realizar uma reunião de emergência para falar sobre a queda dos preços do petróleo antes do próximo encontro programado para junho.
O recuo no preço também antecipa a publicação de dados do governo dos Estados Unidos que devem mostrar que os estoques de petróleo bruto aumentaram, piorando o excedente da oferta mundial.
O petróleo caiu no início de 2016 com a volatilidade dos mercados chineses alimentando uma crise nas ações mundiais. “O mercado está sendo guiado pelo excesso de oferta e demanda fraca” , disse Gene McGillian, analista da Tradition Energy.
Projetos da Petrobras cortados no Estado
Plataformas
As duas novas plataformas que estavam previstas para o Espírito Santo foram canceladas pela Petrobras. A suspensão faz parte dos cortes, de US$ 90 bilhões no país, anunciados em junho com o Plano de Negócios 2015-2019. As embarcações ES Águas Profundas, que seria instalada no litoral Norte capixaba, e a Sul Parque das Baleias, até então prevista para o Sul do Estado, estavam programadas para operar em 2018. Mas elas não aparecem no horizonte de investimentos da estatal dos próximos cinco anos.
Desmobilização
A Petrobras vai deixar de usar as instalações do Terminal Industrial e Multimodal da Serra (TIMS). O apoio às atividades vai passar para Macaé, no Rio. A previsão é que a mudança resulte em cerca de 1.000 demissões de trabalhadores diretos e indiretos. Também há a previsão da desativação de duas sondas no Norte capixaba.
Base de Ubu
O então presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, assinou, em 2007, um protocolo de intenções para construir uma Base Portuária em Ubu, Anchieta. A Petrobras previa iniciar as obras em 2013, e concluí-las em 2016. Mas o projeto não saiu.
Terminal de GNL
Em novembro de 2012, quando a então presidente da Petrobras, Graça Foster, esteve no Estado, ela assinou um protocolo de intenções para construir um Terminal de GNL, em Aracruz. O projeto previa começar a ser construído em 2013. Mas, desde a visita, o empreendimento não avançou.
Venda de ativos
A estatal estuda vender campos de petróleo terrestres. As áreas ainda não foram divulgadas. Também se fala sobre a possibilidade de vender os campos
de Camarupim e Camarupim Norte, onde ocorreu a explosão da plataforma Cidade de São Mateus.
Demissões
Nos seis primeiros meses de 2015, foram demitidos no país quase 60 mil profissionais terceirizados. Não há o número oficial de cortes de profissionais do Espírito Santo nesse período, mas, segundo o Sindipetro-ES, somente de novembro para cá foram mais de 200 demitidos.
Mineração sofre baixa de preços
Se o cenário já não está fácil para empresas que são produtoras de matérias-primas e têm uma forte ligação com o mercado externo, portanto mais expostas às cotações internacionais, 2016 não promete aliviar.
O setor da mineração é um dos que mais está na berlinda. O crescimento da oferta de baixo custo do minério de ferro e o recuo da demanda, principalmente por parte da China, que voltou sua política de crescimento para o consumo interno, associados ao declínio do preço da commodity, estão fazendo com que as companhias do setor se reestruturem e revejam seus projetos.
A Vale, por exemplo, anunciou no final de 2015 cortes de 24% para este ano. A empresa pretendia investir US$ 7,6 bilhões, mas baixou a cifra para US$ 6,2 bilhões. Considerando o médio prazo os cortes são ainda mais significativos: de 48,7%, entre 2015 e 2020.
Evolução do preço de minério de ferro (clique na imagem para ampliá-la)
A redução de postos de trabalho também é um sinal de que o superciclo das commodities ficou pra trás. A mineradora passou, em 2012, de 85.305 profissionais para 76.531 em 2014.
No Espírito Santo, a estimativa de instituições de classe foi que em 2015 cerca de 2 mil postos de trabalho terceirizados chegaram a ser afetados com a conjuntura e o recuo nos investimentos.
Sobre os cortes anunciados em dezembro, a Vale informou que não há como informar o dado regionalmente e esclareceu que os ajustes para redução de despesas e a simplificação operacional são decorrentes “da perspectiva de demanda e oferta desfavoráveis e também pela volatilidade adicional no preço das suas principais commodities”.
O coordenador-executivo do Programa Integrado de Desenvolvimento e Qualificação de Fornecedores (Prodfor), Luciano Raizer, destacou como empresas como Vale, Petrobras, Arcelor, Samarco e Fibria têm influência na dinâmica da economia do Estado. “Elas representam quase 70% do PIB capixaba. Têm uma relevância enorme. Tanto pelo que investem quanto pelo que compram”.
Segundo ele, quando essas companhias encontram um cenário adverso, o impacto é inevitável no Estado. Empregos deixam de ser criados, postos existentes são fechados, contratos são cancelados e os fornecedores perdem mercado. Para Raizer, as empresas capixabas só terão sobrevida se conseguirem se inserir no mercado nacional e melhorarem a qualificação.
“Nossas empresas têm que olhar para o Brasil e para o mundo. E, com a crise, existe espaço, mas a demanda está se afunilando e exigindo preços menores, mais prazos, facilidades de pagamento, atendimento a normas. A luta aumentou”.
O presidente do Cdmec, Antônio Falcão, comenta que a redução dos investimentos no setor de mineração afeta desde as pequenas às grandes empresas prestadoras de serviços e vê com preocupação a desvalorização do preço do minério, cerca de 65% menor do que em janeiro de 2014.
Cortes de investimento na Vale e Petrobras ameaçam empregos no Espírito Santo